terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A gestão de água no Brasil é estúpida

Chega a ser engraçado. Otoridades de água, incluindo o MMA, reunidos pra debater a falta futura de água no país que, acredita-se, tem 13% da água doce do planeta. Um trecho do que diz a "Ministra" de Dilma:

“(objetivo) é desenhar todas as alternativas necessárias para viabilizar a oferta de água no país em situações de estresse hídrico, inclusive dando critérios para priorização de investimentos e dialogando com o Plano Nacional de Saneamento Básico”. O texto continua (...) O objetivo desse estudo é definir as principais intervenções estruturantes e estratégicas de recursos hídricos para o Brasil, tais como construção de barragens, sistemas adutores, canais e eixos de integração. São consideradas infraestruturas necessárias para reduzir os riscos associados a eventos críticos, como secas e enchentes, além de garantir o abastecimento das populações nas cidades e no campo.

Quer dizer, a solução pra falta d'água é transpor rios, matar novos cursos d'água lóticos, construir canais, adutores?

Ninguém vai falar em reduzir desmatamento pra aumentar a infiltração, produção de água e melhoria de qualidade?

Ninguém vai falar em cumprir a legislação ambiental e recompor APPs em margens de rios pra protegê-los de escoamento superficial de poluentes, assoreamento, exposição à luz e calor...?

Ninguém vai falar em aumentar a permeabilidade das áreas urbanas que em São Paulo não chega a 20% do Município?

Ninguém consegue pensar em estratégias pra incentivar as pessoas a captarem água da chuva e instalarem sistemas de reaproveitamento da água em suas residências, guardando água pra épocas mais difíceis e diminuindo o impacto das enxurradas nas épocas fáceis?

Ninguém vai dar a sugestão de pararmos de matar os cursos d'água de todos os tamanhos com o pacote barragens de energia elétrica + barragens de abastecimento + mineração em áreas de nascente + ausência de saneamento básico + poluição difusa por agrotóxicos e fertilizantes no agronegócio + desperdício? O São Francisco já morreu por causa disso e ninguém move uma palha! O Alckmin acabou com a água de São Paulo, uma cidade instalada em uma grande várzea, que inunda de tanta água em todo verão e é cortada por dois rios gigantescos que só servem pra feder e 'atrapalhar o trânsito', e a primeira coisa que pensou como solução era? TRANSPOR-O-PARAÍBA-DO-SUL!!! (quase morto também)

A solução que esses caras pensam é sempre mais água, mais obra, mais água, mais obra, as pessoas no Brasil dão descarga com água tratada! Uma única vez, deu a descarga e manda direto pra Pampulha. Os cursos hídricos que passam dentro da cidade são estrangulados, canalizados e enterrados sob avenidas (imitando o resto do mundo da década de 60, países que hoje já começaram a desfazer essas idiotices) e nós temos que enfrentar enxurrada no verão e racionamento no inverno.

Não é possível que não possa existir vida inteligente na política e gestão pública brasileiras, criatividade, inovação, menos cimento e mais ideias.

Os cargos de quem deveria liderar, estimular a pensar e inovar são ocupados por dinossauros amigos de políticos, normalmente engenheiros velhos ou advogados conservadores cuja preguiça e pragmatismo se sobrepõem a qualquer sopro de criatividade. Imagina esses caras gerindo a água no Oriente Médio.. E a gente tem que aguentar cada dia uma merda diferente.

domingo, 7 de setembro de 2014

Eduardo Gianetti, Marina Silva e o Pagamento por Serviços Ambientais

Eu estudo (e trabalho com, no mestrado) políticas de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) há uns 5 anos, e acompanho bem de perto a Marina Silva há uns 6 anos. E nunca tinha visto em discussões políticas importantes a pauta dos PSAs e internalização de problemas ambientais nas transações econômicas. Nem da Marina, nem de ninguém.

Por isso fiquei positivamente surpreso (pra variar né Marina?) e quase empolgado com a excelente entrevista de Renato Janine Ribeiro que cita como Marina Silva e Eduardo Giannetti estão discutindo essas questões. Explica de forma simples como esses mecanismos são promissores. Trecho que merece destaque:

"O Eduardo Gianetti defende gastar menos com lazer contraprodutivo, gastar menos na Europa, por exemplo, e ir mais a eventos culturais no Brasil, na sua cidade. A proposta da Marina é muito intensa, de mudar o mercado de capital.

P- O sr. poderia dar um exemplo de cobrança ambiental ou social?

Um voo de avião gera certa quantidade de carbono. O custo da passagem talvez não seja 300 reais, talvez seja 700. Nossa economia é expert em terceirizar o prejuízo. Você anda de avião e não paga o consumo de carbono, não paga as doenças, a mudança climática. A ideia do Gianetti é pegar esses fatores e fazer alguém pagar por isso. Isso é muito diferente do mercado tradicional. Não deixar crescer espetando a ponta no outro. Não é fácil fazer isso. Uma coisa que está sendo feita em alguns lugares é cobrar pelo uso da água. Numa parte do Brasil você paga o tratamento da água, mas não a água – você não sabe quanto a água vale. A água é um recurso escasso, finito, não pode ser gasto assim. Várias tentativas da Rede são de tentar domesticar e civilizar o mercado. Não é o mercado que os tucanos entendem.

P- E se esses produtos ficarem com um preço proibitivo?

É possível, pois isso está sendo pago por outras pessoas. Os prejuízos são pagos por meio das mortes e doenças das pessoas, da dor das famílias. Por que esse custo não pode ser colocado no produtor? Se ficar improdutivo, deixam de produzir. Se você bebe Coca-Cola, pega a garrafa e joga no córrego, vai entupir. Você tem de pagar por isso, pois poderia pegar e jogar no lixo reciclável. Outro caso é o do cigarro. Isso eu acho fascinante. Muda a estrutura, torna a estrutura mais saudável, no limite resolve casos de produtos ruins. O McDonalds teria de pagar uma fortuna.

P- E os bens necessários para a sociedade moderna, como os eletrônicos (televisões, rádios, celulares, computadores)? Sabemos que a matéria-prima de certos componentes dos eletrônicos, por exemplo, são extraídas por mineiros em condições degradantes, sem direitos trabalhistas e colocando sua saúde em risco.

A prioridade é: esses mineiros não podem se lascar. Se houver danos de saúde, se aposentam mais cedo. O custo vai pro produto. Podemos estabelecer que determinado nível é isento, subsidiado, como um carro 1.0, ou um rádio simples. Poderíamos fazer a mesma coisa com o computador. Se eu acho essencial para uma sociedade ter acesso universal à internet e ao computador, isso é um bem publico. Então, é dever do Estado oferecer isso a baixo custo – não de graça, mas barato. Precisam ser coisas definidas claramente, transparentes e visíveis pra todos."

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Primeiro registro fotográfico do jacu-estalo da mata atlântica

É com muita satisfação que finalmente apresento-lhes a primeira foto que se conhece, feita por um ser humano (além de uma foto terrível de camera trap), da subespécie da Mata Atlântica do jacu estalo, o Neomorphus geoffroyi dulcis.

Se esse bicho já é raro na amazônia brasileira, imagina na Mata Atlântica, onde se conhece menos de meia dúzia de avistamentos nas últimas 2 ou 3 décadas. Certamente é um ponto alto e um dia inesquecível na vida de qualquer ornitólogo/observador de aves. O bicho simplesmente pulou na minha frente e do amigo Daniel Teixeira no meio da trilha no Parque Estadual do Rio Doce.

Mais detalhes do registro e informações sobre a espécie foram publicados na edição de setembro da Brazilian Journal of Ornithology.

Registro em melhor qualidade: http://www.wikiaves.com.br/1488623

Primeira fotografia feita por uma pessoa do Neomorphus geoffroyi dulcis, o jacu estalo da Mata Atlântica.
Foto: André Aroeira Pacheco

domingo, 15 de dezembro de 2013

Plante comida, não gramados


Já faz algum tempo que a página Grow food, not lawns vem sendo a minha favorita no Facebook. Um misto de paz, otimismo e boas intenções em um mar de caos, futilidades e ostentação que caracteriza a rede social, talvez o preço que temos de pagar para ter acesso a ferramentas importantes de descentralização de informação e aprendizado (pra quem quer...). Mas a imagem que eu vi numa quarta-feira dessas pra trás foi um tanto impressionante, mesmo para o alto nível de conteúdo da página, que se baseia em uma proposição simples ao seu público de 500.000 curtidores de todo o mundo: plante comida, não gramados.

Vista aérea de loteamento em Genebra, Suíça (46°12’N, 6°09’E).
Foto de Yan Arthus-Bertrand. Fonte: http://migre.me/dZY9w

A primeira reação ao ver esta imagem é simples de descrever: P.Q.P., é assim que tinha que ser!!!”.

Vamos esquecer que estamos falando da Suíça, imaginar que esse exemplo é perfeitamente replicável em qualquer lugar do Brasil e tentar responder uma pergunta simples: quais as vantagens de se ter uma cidade ou bairro planejados desta forma?

Em primeiro lugar, como o próprio nome implica, a agricultura urbana traz um benefício explícito, a produção local e descentralizada de alimentos. Isto significa dizer que as pessoas plantam sua própria comida, ou boa parte dela, e não têm muitos problemas para sobreviver ainda que estejam em épocas de crise (ou até desempregados). Com toda certeza, podemos dizer também que a qualidade nutricional destes alimentos será sensivelmente melhor, pelo simples fato de que quem planta o que vai comer o faz da melhor maneira possível, o que ninguém pode garantir quando a produção é feita por terceiros.  Este terceiro pode estar cuspindo, urinando ou pior - e mais comum - envenenando sua comida na tentativa de não perder uma única folha da safra e maximizar o lucro. Ainda assim, na agricultura urbana, você tem a opção de terceirizar essa produção: já pensou no lado mais romântico de dar essa responsabilidade para seu(s) filho(s), desenvolvendo nele(s) de forma definitiva um senso de responsabilidade e respeito à natureza? É certamente benéfico - e divertido - para uma criança, fugir da televisão, da internet e do videogame e conhecer o mundo real, ser responsável pelo jantar da semana que vem, ver seu trabalho dando frutos, entender de fato de onde vem a comida, criar uma conexão com o meio natural ao qual pertence (talvez os pais também estejam precisando dessas lições). Ainda, comer coisas realmente saudáveis, plantar e colher flores, árvores, resgatar as sementes, plantar tudo de novo no mês que vem.. Este trabalho terapêutico de poucas horas diárias pode envolver muito mais, um idoso, os vizinhos, uma ‘gangue’ de crianças da rua e do bairro, algumas crianças com necessidades especiais, um autista. E ainda vai economizar uma grana pra família.

Pensando em uma escala maior, os benefícios da agricultura urbana também podem ser maiores. Em um País como o Brasil, que manda diariamente para lixões ou aterros, comida suficiente para alimentar 20 milhões de pessoas com as três refeições, uma simples composteira poderia resolver o problema da disposição final do desperdício. Os resíduos orgânicos gerados no preparo ou no desperdício em casa seriam mandados de volta para o ‘jardim’ e, reciclados, alimentariam as próximas ‘safras’, economizando no transporte de comida para os aterros e lixões, na superlotação precoce destes e na decomposição de matéria orgânica em ambiente anóxico, que gera gases de efeito estufa muito piores que o CO2. Advém ainda deste cenário a possibilidade de que quem se preocupa com resíduos orgânicos talvez se preocupe com resíduos recicláveis por uma simples mudança de mentalidade, dando um fim (ou um novo início) adequado este tipo de material (na página GFNL são ensinadas milhares de maneiras de se reaproveitar estes materiais na própria horta, vale dar uma olhada). O alívio na cadeia de resíduos da cidade e consequentemente no meio ambiente podem ser extraordinários.

Dando um passo além e pensando ainda em maior escala (ou menor, como preferem os geógrafos, já que o denominador da fração é quem aumenta), a agricultura urbana representa também um incremento de justiça social e econômica. Com a reforma agrária inacreditavelmente empacada em países como o Brasil há décadas, essa atividade pode se transformar em fonte alternativa de renda e levar à descentralização da produção de alimentos, que tem causado genocídio (inclusive cultural), concentração de renda, destruição ambiental e êxodo rural, aliados ao aumento do trabalho escravo, característicos da agricultura industrial (o agronegócio). Ainda, as menores distâncias entre produtores, agora na cidade, e consumidores, fortalecem os mercados locais, contribuindo também para a distribuição de renda e diminuindo a necessidade de transporte, notável poluidor e responsável por perdas substanciais da produção. No mundo todo são crescentes as iniciativas de criação de hortas comunitárias no lugar de praças abandonadas (ou praças de esportes etc) em comunidades pobres, e as vantagens nutricionais, ambientais e socioeconômicas desses modelos têm dado ótimos retornos.

Mais uma olhada na foto aérea e outras vantagens emergem, desta vez relativas ao planejamento do uso e ocupação do solo. É praticamente inimaginável que uma chuva forte neste contexto resultará nas tragédias previsíveis enchentes que vemos em todos os grandes e médios municípios brasileiros; em primeiro lugar, o percentual de impermeabilização não deve chegar a 30%, permitindo a infiltração e o acúmulo da água no solo, minimizando os escoamentos superficiais; em segundo lugar, é bastante provável que cada agricultor urbano capte e armazene a água das chuvas que chega à sua casa, pois tem consciência de seu valor; e ainda, a diminuição do lixo e da carga de sedimentos arrastados com os escoamentos aumentaria a eficiência do sistema de drenagem do município. Na realidade brasileira, podemos citar o exemplo da impermeabilização da Macrozona de Estruturação e Qualificação Urbana da Cidade de São Paulo (Figura abaixo), onde os percentuais de impermeabilização chegam a 84%, tornando inevitáveis as enchentes que assolam a região metropolitana da cidade. As soluções megalomaníacas mágicas emergenciais (e caras!) propostas variam entre a criação de crateras gigantes de armazenamento da água (!!!) e desassoreamento do Tietê (leia-se aumento da calha) pra tentar compensar a imbecilidade e o desleixo na organização espacial da cidade, enquanto o problema real continua sendo ignorado.

Tragédia anunciada: distribuição espacial da percentagem de área impermeável dos distritos da zona urbana de São Paulo no começo da década de 2000. Fonte: http://migre.me/dZVlN

Pensando ainda neste contexto, é possível visualizar corredores ecológicos sendo formados nesta configuração de planejamento urbano, especialmente se mantidas APPs e Reservas urbanas (um Parque, por exemplo). Neste sentido, uma matriz intransponível no modelo atual brasileiro pode se transformar em local mais propício ao estabelecimento e deslocamento de espécies animais e vegetais, melhorando fluxos gênicos e a conectividade entre populações, que de outra forma estariam isoladas e mais vulneráveis.

Esta nova configuração resultaria em aumento da qualidade ambiental e de vida, tornando as cidades menos cinza, mais harmoniosas e mais vivas. A educação ambiental propiciada pelo contato com a terra, o cuidado com o lixo e a convivência com as áreas verdes, aliada à responsabilidade socioambiental na produção local de comida, elevariam o senso de responsabilidade e solidariedade das pessoas. A menor necessidade de dinheiro, o maior (e melhor) contato com os filhos e vizinhos, a existência de vida fora de casa e o real aproveitamento do tempo livre (que talvez aumente) também contribuiriam para o aumento da felicidade das pessoas. Tudo isto em um contexto mais saudável, mais limpo e mais sustentável.

Talvez demoremos a atingir este ponto, mas o primeiro passo pode ser dado por qualquer um, em qualquer lugar. Este texto é meu primeiro passo, o próximo quem sabe será um quintal como o da foto abaixo, onde todos possam ajudar e/ou pegar os alimentos que quiserem. Seja você também mais solidário, mais humano, mais vizinho, mais amigo, mais pai, mais filho, mais feliz. Grow food, not lawns.




quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Os benefícios do crescimento da observação de aves no Brasil

A observação de aves é uma atividade relacionada ao turismo ecológico que está longe de ser uma novidade no mundo, mas tem ganhado um impulso muito grande no Brasil nos últimos anos. Conhecida pelos vocábulos birding ou birdwatching nos Estados Unidos e na Europa, onde tem grande força e movimenta bilhões de dólares anuais, se caracteriza por uma intensa conexão do birder com o ambiente natural e está cada vez mais fácil de se praticar. Neste contexto, o Brasil pode se considerar privilegiado enquanto local para o contato com estas criaturas aladas, que chegam a quase duas mil espécies por aqui, número que nos coloca como segundo mais diverso do mundo, atrás apenas da Colômbia. Não é por acaso que birders de todo canto vêm ao país todos os anos para observar algumas das aves mais incríveis do planeta, em busca de cores espetaculares, seus belos cantos e sua diversidade.

Atualmente, quase toda grande cidade brasileira conta com um ou mais grupos de observadores, que se organizam em passeios, encontros e viagens em busca de observar, fotografar, escutar e gravar estes animais. O desenvolvimento tecnológico mudou pra melhor a vida destas pessoas nos últimos vinte anos, permitindo a adesão de passarinheiros de todas as idades. Os registros e os encontros com as espécies se tornaram muito menos trabalhosos pelo surgimento e o contínuo aperfeiçoamento de câmeras e gravadores digitais; a expansão das redes de observadores, com a criação de grupos nacionais e regionais que compartilham informações, registros e novidades do mundo das aves em redes sociais, grupos de email e sites específicos; o desenvolvimento de novas tecnologias para a modernização de lunetas e binóculos; e a revolução proporcionada pelo playback, técnica que consiste em reproduzir a vocalização da ave de interesse de forma a estimular um canto-resposta ou mesmo atrair a ave para perto do observador, facilitando a visualização e permitindo melhores fotografias e gravações. Não é preciso dizer o quanto era difícil carregar pelo mato uma coleção de gravações próprias em fitas cassete e um toca fita movido por uma dúzia de pilhas, aguardando o momento certo de procurar uma ave específica na bagagem. Quem se aventura com o playback hoje consegue baixar diversos tipos de vocalização de milhares de aves do mundo gratuitamente na internet, colocar em um celular ou mp3 e reproduzir em caixas de som portáteis movidas a pilhas que duram uma eternidade.

Acompanhando a revolução das redes sociais, outro pilar principal da explosão do birdwatching de fim de semana no Brasil nos últimos cinco anos é o site Wikiaves, a Enciclopédia das Aves do Brasil, ponto de encontro de obervadores do mundo inteiro. Neste site, usuários compartilham registros auditivos e fotográficos realizados em território brasileiro ou estrangeiro de qualquer uma das 1.832 aves de ocorrência reconhecida no Brasil pelo CBRO (Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos). Cada espécie ganha sua própria página com informações biológicas (reprodução, características, ocorrência, hábito, alimentação) e um mapa de ocorrência construído pelos próprios usuários ao compartilhar suas fotos e sons. Da mesma forma, cada usuário cria o seu perfil para publicação de seus registros, que ao serem aprovados geram um compilado de informações para si (número e lista de espécies registradas, locais visitados, dentre outros) e para os municípios, estados e Unidades de Conservação brasileiros (número de espécies, lista de espécies, lista de usuários e visitantes, dentre outros). Mapas interativos, fórum de discussões e ferramentas completas de busca permitem encontrar praticamente qualquer tipo de informação que o usuário necessitar. Vai viajar amanhã pro Pantanal ou pra Amazônia? Entre no site e veja a relação de espécies do seu destino, em quais Municípios cada espécie ocorre ou pode ocorrer, o tipo de hábitat e a melhor época do ano para encontrá-las, gravações para playback disponíveis para download, guias e usuários experientes da região que podem te mostrar os melhores locais de observação.

O ponto mais interessante no crescimento desta atividade é a série de benefícios às pessoas e à conservação das aves e do meio ambiente no Brasil. A começar pelo seu caráter democrático, que permite a prática por pessoas de todas as idades e diferentes trajetórias de vida, levando à formação de novas amizades, parcerias e o intercâmbio de experiências em assuntos diversos. A educação ambiental também é um dos importantes ganhos pessoais e coletivos experimentados pelos usuários, que estabelecem conexões muitas vezes nunca experimentadas com o meio ambiente através das aves e de seus diferentes hábitats. Este primeiro passo frequentemente leva à tomada de consciência em outros temas e conceitos importantes na conservação da biodiversidade muitas vezes negligenciados pelo grande público, como destruição e fragmentação de hábitats, tráfico de animais silvestres, extinções locais de espécies, qualidade ambiental e importância de políticas públicas voltadas à conservação. Assim, pessoas que começam a se preocupar com a ocorrência desta e daquela espécie em sua própria cidade se tornam gradativamente mais sensíveis a abraçar a causa ambiental no seu dia-a-dia, como o acompanhamento das políticas de meio ambiente de sua região, a escolha dos ingredientes do almoço e a preocupação com a destinação adequada de seu lixo.

Curiosamente, a ciência também tem se beneficiado do caráter democrático do birdwatching, que frequentemente gera registros documentados de extrema relevância para o conhecimento e a conservação de aves brasileiras em novos comportamentos, novas características, novas áreas de ocorrência de aves e até de novas espécies para o Brasil. Um exemplo bastante interessantes é o registro do combatente (Philomachus pugnax) em Belo Horizonte, espécie de maçarico jamais registrada em território brasileiro e surpreendentemente clicado pelo observador Daniel Dias na Lagoa da Pampulha em 2013.

Inúmeros outros benefícios desta prática podem ainda ser experimentados e proporcionadas por passarinheiros no Brasil, como o incentivo à atividades físicas, já que a observação pode ser associada a esforço físico por seus praticantes em caminhadas, trilhas, viagens e outras aventuras; a criação de novos destinos e roteiros de turismo sustentável no país, que movimentam a economia dos locais de destino, favorecem a preservação de áreas naturais e geram emprego e renda pela demanda de serviços especializados de guias, hospedagem, viagem e alimentação; formação de vínculos pessoais afetivos, de amizade e de contatos profissionais; aumento do interesse por conhecer a própria cidade pela busca constante de novos e diferentes locais de observação, contribuindo direta e indiretamente para a formatação de políticas públicas.

Por tudo isso, a prática da observação de aves, quando realizadas de maneira correta e ética – como por exemplo, não abusar de playbacks, saber utilizar o flash nas fotografias e se portar adequadamente diante de ninhos e filhotes – é benéfica para seus praticantes, para a sociedade e até para a ciência. Qualquer pessoa interessada pode começar já, procurando um grupo de observadores de aves na sua região e em redes sociais, ou simplesmente se aventurar por aí ouvindo, observando, fotografando e gravando estes seres extraordinários. Aqui vão alguns links que podem ajudar nestas tarefas, e boas passarinhadas para todos nós!

Links úteis:
Wikiaves – encontre as espécies e usuários de sua cidade e sua região, consiga auxlio na identificação de seus registros, veja informações variadas sobre cada uma das espécies brasileiras, fórum de discussões de todos os temas relacionados e muito mais.
Código de ética da observação de aves:  - tradução e adaptação do The American Birding Association's Code of Birding Ethics.

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Originalmente postado no Autossustentável: http://www.autossustentavel.com/2013/12/beneficios-observacao-aves-brasil-birdwatching.html

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Economia ecológica

"(...) O mundo mudou dramaticamente. Nós vivemos agora em um mundo relativamente cheio de humanos e sua infraestrutura de capital construída. Neste novo contexto, nós temos que primeiro lembrar que o objetivo da economia é de prover de maneira sustentável o bem estar humano e a qualidade de vida. Nós temos que nos lembrar que o consumo material e o PIB são meramente meios para este fim, e não o fim por si mesmos. Nós temos que reconhecer, como a sabedoria antiga e novas pesquisas da psicologia nos contam, que o consumo material além da real necessidade pode na verdade reduzir o bem-estar. Nós temos que entender o que realmente contribui para um bem-estar humano sustentável, e reconhecer as contribuições substanciais do capital natural e social, que hoje já são os fatores limitantes em muitos países. Nós temos que ser capazes de distinguir entre a real pobreza em termos de baixa qualidade de vida e a mera baixa renda. Por fim, nós temos que criar um novo modelo de economia e desenvolvimento que reconhece esse novo contexto e visão de mundo."

ROBERT COSTANZA. Toward a new sustainable economy. Real-World Economics Review, nº. 49, pp. 20-21, 2009. Disponível em: http://www.paecon.net/PAEReview/issue49/Costanza49.pdf.

terça-feira, 12 de março de 2013

A rebrota de Bola Pra Mata!

Após algum lack de tempo para me dedicar a postagens, este blog se reinaugura em 2013 com força total. E não, não é porque o ano só começa depois do carnaval...

Esses últimos meses foram bem corridos e dedicados à monografia para conclusão de curso e concurso de mestrado, aliado a 30h/semanais de estágio, um namoro e a novela da contratação de Diego Tardelli pelo Galo, que me tomou excepcional quantidade de energia.

Felizmente o Tardelli veio, minha monografia foi aprovada com um honroso 98 (extrapolei em 4 minutos o tempo máximo permitido para poder explicar uma curva de demanda a uma plateia de biólogos...), meu namoro já bateu um ano e eu passei no concurso de mestrado de uma das mais importantes universidades da América Latina. Agora é reviver o projeto do blog cuja experiência me rendeu bons frutos no último semestre.

Nas próximas semanas falarei sobre a valoração de serviços recreativos no PNSC (monografia), que somam significativos 50 milhões de reais por ano; sobre a impressão de minha visita ao Parque Estadual do Rio Doce, seus pontos positivos e negativos; sobre minha recente imersão no mundo do birdwatching; sobre as novas e crescentes ameaças prometidas pelos Senadores e Deputados à sobrevivência de toda e qualquer forma de vida do País e do continente que não lhes dê dinheiro para campanha eleitoral; sobre o novo, e (FINALMENTE!) realmente novo partido que irá surgir no País ainda este ano pela iniciativa fantástica de um grupo de milhares de pessoas bem intencionadas - Rede Sustentabilidade; e sobre o Galo de Ronaldinho Gaúcho, que vem estarrecendo a América.

Aguardo vocês por aqui nas próximas semanas,
Um abraço.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A minha relação com Veja

Se tem uma sensação que não deve ser muito agradável, de acordo com o que tenho (tinha) visto na TV, é aqueeela sensação de inchaço. Aquela sensação que de tão desagradável leva a amiga - que encontra a outra no supermercado, após de um longo período de relacionamento remoto - a perguntar de cara: amigaa, como vai esse intestino?! Eu sou particularmente abençoado com o tal reloginho no lugar do intestino e nunca tive que ouvir essa pergunta - até porque o time do Galo caindo pelas tabelas é a primeira coisa que as pessoas pareciam ver na minha cara ao longo de toda a minha adolescência – mas desconfio que essa bênção é muito menos divina – ou genética – do que ela parece ser.

Desta vez eu vou aceitar a sugestão.
Voltando um pouquinho no tempo até mais ou menos onde vai a consciência sobre a confiabilidade do meu sistema digestivo, me vem a lembrança da época exata em que comecei a ler a revista Veja, lá pro final do ensino fundamental:

- Assine uma revista e estude atualidades ou então vai tomar pau no vestibular! – profetizaram meus professores. Em seguida o pessoal lá de casa, na melhor das intenções, tratou de assinar a revista "mais vendida", como se fosse prova irrestrita de qualidade. Alguns anos mais tarde eu passaria no vestibular com uma boa nota na redação e provavelmente com uma contribuição pífia de Veja. Mais provável ainda é que, tendo levado um pouquinho mais a sério a “revista”, eu teria desistido de tentar o curso mais bonito que a humanidade foi capaz de inventar, o estudo da vida.

Mas não vou negar que Veja teve um papel importante na minha formação. Depois de desenvolver um pouquinho mais o senso crítico e assistir alguns dos mais experientes e competentes cientistas do País (às vezes do mundo) dentro da sua sala de aula, você começa a entender o motivo de eles, tendo formulado a prova do vestibular – isso ainda existia! – não terem dado muita bola pros assuntos tratados na revista.  Posso dizer que depois de ter contato íntimo com artigos científicos de revistas de referência mundial escritos pelas maiores cabeças do planeta ao longo da história, você começa a entender o porque de aqueles graficozinhos parecerem estar torturando as estatísticas pra te convencer que o MST é "contra o interesse da nação". Talvez possa afirmar ainda que o meu trauma com a superficialidade das mais diversas reportagens, resumidas ao máximo pra caber no esqueminha de páginas "propaganda de banco e carro sim, propaganda não" tenham tornado minha escrita detalhada e às vezes prolixa – mas o menos vazia que eu puder tentar. O fato é que o mau exemplo de Veja, se tomado com moderação, pode desenvolver muito mais o senso crítico do que você é capaz de imaginar.

Neste contexto, ao longo da minha graduação, a relação de quase gratidão e de desprezo se aprofundaram bastante. Quase gratidão pela perseguição implacável, às vezes imoral com o (des)governo Lula e PT, ainda que pelas vias tortas. Não que eu seja conivente com a imoralidade, muito pelo contrário; ainda que o Lula mereça, imoralidade não combina com justiça. Mas um governo que trata levianamente a corrupção e o bem comum com uma política de compra indireta de votos em programas mitigatórios e de vida curta precisa de uma oposição dura e ativa, e talvez a Veja represente esse papel. Por outro lado, à exceção da fantástica Isabela Boscov, não há nada mais a ser aproveitado na redação, nas pautas, na linha editorial e nos recursos humanos da revista: logo, nesta época de desastres ambientais, meu desprezo supera, de longe, a minha gratidão.

Podemos tomar como exemplo a discussão do Código Florestal: a revista lançou mão de seu desinteresse com o jornalismo sério e publicou uma reportagem entitulada "Preserve-se o bom senso", onde acusou, de uma tacada só, ambientalistas, ONGs, estudantes e os maiores especialistas do País em meio ambiente, agricultura e ordenamento do uso do solo, de "ecoxiitas" contra o Progresso do Brasil. Atacou a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e a Academia Brasileira de Ciências, cujos cientistas assinaram um documento de mais de 200 páginas baseado em séculos de pesquisa e décadas de experiência explicando tintim por tintim porque a revisão da legislação, como proposta, representava uma catástrofe. Atacou mais de 500 insituições da sociedade civil que, juntamente com 1,5 milhão de brasileiros, repudiaram um código florestal feito por parlamentares, muitos deles corruptos, outros tantos semi-analfabetos, mais um bucado com o rabo preso e todos legislando sobre um assunto que desconhecem profundamente.

Greenwashing clássico: criança, negro e alusão à defesa do meio ambiente. 
"Indispensável para a revista que queremos fingir ser". (site Almapbbdo)
Se alguém aí tem estômago forte pode procurar a opinião do super time de especialistas em agricultura sustentável da revista – o que inclui a miss desmatamento, senadora Kátia Abreu, o doente mental cientista político Reinaldo Azevedo (argumentação impagável) e ainda – concluí aos 15 anos – algumas dúzias de pseudojornalistas (e pseudocríticos) que se sujeitam a um jornalismo de quinta provavelmente desesperados por alguma estabilidade em uma carreira para a qual não têm muito talento: aquiaquiaquiaquiaqui...

Poderíamos ainda perder algum tempo argumentando sobre os artigos de conteúdo preconceituoso contra homossexuaisíndios, outros índios e mais índios; em favor de agrotóxicos "pelo bem da sociedade brasileira" [te lembra alguma coisa?]; criminalização de movimentos campesinos nacionais; e milhares de outras que semanalmente se empenham em uma lavagem cerebral sobre seus desafortunados leitores de classe média que provavelmente trabalham 44h/semanais e têm pouco tempo de exercitar o senso crítico – quando não o creem estar fazendo ao ler “a maior revista do País”. Ou poderíamos completar o raciocínio falando da postura direitista cega e conservadora da revista que se presta a fazer oposição por fazer, como no congresso: tudo que o governo faz está errado e tudo que soa razoavelmente socioambiental é lulista é “esquerdista” (consideração: creio ser mais fácil a Kátia Abreu comer da soja transgênica que os escravos do seu irmão ela planta do que o Lula ter alguma – qualquer uma – inclinção ambiental). Contraditoriamente, se a situação aprova os projetos do governo apenas porque é da situação – o que de fato é um disparate - é um escândalo.

A postura hipócrita e mal intencionada da revista me lembra o senador (tucano) da República por São Paulo Aloysio Nunes, durante a discussão do Código Florestal, quando revoltado com o fato de ambientalistas estarem gritando impropérios contra os senadores nas galerias do Congresso Nacional, saiu pelas galerias do Congresso Nacional gritando impropérios contra os ambientalistas. Aloysio, por ser oposição, provavelmente receberia o respaldo da revista (não encontrei menção ao fato no site de Veja). Posteriormente, por email, seu chefe de gabinete utilizou Winston Churchill para justificar-se comigo sobre o porque de o senador chamar os manifestantes de “seus merdas”: “(...) A democracia é o pior regime, exceto todos os outros. (...) Continue vigiando e nos ajudando a fazer o mandato do Senador Aloysio Nunes Ferreira cada vez mais alinhado com os eleitores de São Paulo”.

Ser ou não ser? (site Almapbbdo)
Chegando aos finalmentes, cito Mariana Alves Campos, que fez um estudo da evolução da temática ambiental na pauta da revista, e diz que a abordagem do passado era diferente. Se atualmente as reportagens são baseadas em uma suposta “análise equilibrada” restrita aos temas da moda nas relações entre economia e do meio ambiente – Rio+20, Código Florestal, Efeito Estufa, Matriz Energética, Lixo etc  – nas décadas passadas a postura era abertamente antiambiental em reportagens bastante raras. Se isso era pior do que a mentira e a desinformação que hoje são praxe, eu duvido; é melhor um inimigo que um amigo traíra. Mariana sugere sutilmente que a revista mude sua linha de análise ambiental de "modismos (temas como Rio-92 e desenvolvimento sustentável, na década de 90, e mudanças climáticas, em 2007) e/ou da valorização do caótico (notícias sensacionalistas, impactantes" para um jornalismo de mais valor, que seria "noticiar o que é considerado relevante social e coletivamente".

Não conheço Mariana Alves, mas já a admiro por seu otimismo.

Creio que posso poupar os leitores dos detalhes mais específicos da minha relação com Veja e os motivos que me levaram a finalmente substituir a leitura da revista que, para qualquer emergência, continuará sempre ao alcance da mão desde o vaso sanitário. Mesmo aqueles que têm uma dieta saudável e um intestino bem regulado, de vez em quando precisam de um empurrãozinho. E pra esses momentos - até o dia em que eu voltar às fraldas e não importar mais o fato de ter o reloginho programado pra cada 24 horas - a Veja continuará sendo, como sempre foi, indispensável.

ps. a não ser, veja bem, que o churrasco do dia anterior tenha sido regado a Itaipava...

domingo, 15 de julho de 2012

RIOS DE INCOERÊNCIA



Depois de uma semana de um luto bem curtido (talvez seja assunto por aqui em breve, talvez não), algumas leituras oportunas voltaram a despertar certos pressentimentos catastróficos que povoam a mente de qualquer biólogo bem informado nos tempos modernos. Não pretendo dar ao blog um ar de Jornal da Alterosa e nem pretendo dar voz ao radicalismo verde que enfraquece a argumentação em defesa das causas ambientais - mais por ingenuidade do que por falta de boas intenções - mas não dá pra debater o futuro dos rios brasileiros sem ser pessimista. Se a situação atual já é catastrófica, a situação projetada para médio prazo, com todas as iniciativas do executivo e os ataques à regulamentação, que já anda meio mal das pernas, promovidos pelo legislativo, a tendência é que haja piora significativa (eufemismo). Antes de começar a projetar o futuro, devemos ter em mente algumas considerações acerta do status atual das bacias hidrográficas brasileiras.

Em primeiro lugar, o que você encontra em qualquer portalzinho meia boca, ouvia da sua professora desde os 5 anos e provavelmente ficou fascinado em saber: o Brasil tem 12% da água doce do planeta e dois dos maiores aqüíferos do mundo. Talvez tenha lido um pouco mais sobre o assunto e sabe que o Brasil tem a maior diversidade de peixes do mundo, e se for um cara muito bom como o Manconi ou o Pronzato vai saber que até em espécies de esponjas dulcícolas o Brasil é fodão, com pelo menos 25% das espécies da Terra, 94% delas endêmicas, segundo dados de 2007: pra não complicar a cabeça e não perder o foco, não vamos discutir o quanto um país subdesenvolvido de dimensões continentais e desprezo à pesquisa conhece da totalidade de suas espécies de esponjas de água doce num dos cantos mais aguados do planeta. O fato indiscutível é que temos o potencial pra sermos os maiores do mundo em tudo que se refere à água, segundo os conhecimentos científicos produzidos até o século XXI.

Na prática é diferente. A relação do povo brasileiro e principalmente do governo brasileiro com as bacias do país - e a Mata Atlântica, e os animais, o mar, os solos (...) - é mais ou menos a relação de um cafetão com a sua(s) puta(s) – é sério, um amigo meu tem um amigo que conhece muito bem o submundo do amor e me contou. O governo nas três esferas de poder é o culpado óbvio, por ser ele o implementador (e fiscalizador) de medidas de comando e controle e pelo estabelecimento (e fiscalização) dos instrumentos econômicos que vão gerir a relação da sociedade com o ambiente, de forma geral. Na maioria dos casos, portanto, é culpa direta do governo, por ação ou inação, que o agricultor destrua os rios de sua propriedade (e da propriedade alheia) com agrotóxicos; que as cidades despejem dejetos com variados níveis de contaminação em suas águas (e na dos próximo), não necessariamente de forma clandestina; que milhares percam tudo pras previsibilíssimas enchentes e desmoronamentos que assolam todo o país, todos os anos. Todas essas correlações não são tão óbvias assim, e serão matéria de discussão por aqui nos próximos meses. Mais uma vez, a moral da história é que a posição negligente (dolosa?) do governo com os recursos naturais do País leva a catástrofes ambientais – e sociais – no país mais abençoado do mundo, ou pelo menos o foi, entre os anos 6.000.000.000 a.C. e 1.499 d.C..

Mapa de 2002 com os empreendimentos hidrelétricos alterando
profundamente os cursos d'água do sudeste brasileiro: naquela
época, já era difícil ver São Paulo. Fonte: Aneel
Mas indo direto ao ponto, o que já era ruim vai certamente piorar. Curiosamente, – apesar de não ser mais que obrigação – uma das principais bases de dados que denuncia o status das bacias brasileiras vem da autarquia federal que tem os grandes poderes de regulamentação do setor. O Panoramada Qualidade das Águas Superficiais – 2012  lançado a menos de um mês pela Agência Nacional de Águas, revela que 47% das águas inseridas em áreas urbanas já são ruins ou péssimas. A maioria dos rios brasileiros está em boas condições por serem inacessíveis, mas o governo Lula/Dilma vem tratando de derrubar a fronteira Amazônica a pancadas, já tem um tempinho. Os PACs preveem a construção de dezenas de hidrelétricas, sustentadas mentirosamente como energia limpa pelo governo brasileiro. Já em 2009, Lula foi aplaudido ao fazer um discurso carregado de hipocrisia, que soa curiosamente contrário à indicação de usinas hidrelétricas como fonte de energia limpa. No discurso, Lula cita o exemplo de Balbina (veja o link, é uma história incrível), uma aberração hidroelétrica como nunca houve na história desse país e provavelmente dessa galáxia, enquanto planejava abertamente um plano complexo de redução de Unidades de Conservação e destruição dos rios amazônicos por megausinas. Os barramentos em série planejados pelo governo ameaçam a maravilhosamente imensa variedade de peixes migradores do Brasil, cujas desovas são depositadas nos megarreservatórios e facilmente predadas, impossibilitando a reprodução destes a longo prazo – vale lembrar que esses animais têm grande porte e vida longa, e quando as notícias dos efeitos catastróficos sobre eles chegarem, os responsáveis já não mais terão responsabilidade, como em muitas coisas no País. Em Minas Gerais e no sudeste brasileiro quase não existem trechos lóticos nas bacias (Figura 01), e fazendo uma analogia simples, grandes reservatórios estão para grandes espécies migradoras brasileiras como uma área de pastagem está para uma população de primatas arborícolas. 
Animais como o bagre e como a perereca de Lula são símbolo do desprezo ambiental que é empurrado guela abaixo de uma pequena parcela de pessoas bem esclarecidas – incluindo os técnicos do IBAMA, cuja opinião não interessa – em discursos pautados pela desinformação, pela dissimulação e pela mentira.

O analfabetismo funcional e a ignorância ecológica do ex-presidente parece ter se disseminado por transmissão vertical quando resolveu parir outra aberração ecológica: Dilma conseguiu completar 18 meses sem criar uma Unidade de Conservação sequer enquanto era conivente com a retalhação do Código Florestal. Simultaneamente, promulgou a MP 558 que retira 86 mil hectares de UCs para dar lugar a 4 megausinas hidrelétricas, em sintonia com os anseios dos grandes financiadores de sua campanha, que terão bilhões pra torrar (na verdade, fazer o que quiser) em suas empreitadas.

Exatamente no novo CF se espera a destruição mais profunda da qualidade das águas brasileiras. A figura da mata ciliar como Área de Proteção Permanente foi severamente comprometida, o que na prática limita muito a proteção que estas exerciam na contenção de encostas e poluentes. É um consenso antigo na comunidade científica que o lixiviamento de agrotóxicos, metais, lixo e diversas outras formas de contaminantes é grande em épocas chuvosas e especialmente preocupante em rios onde não existe vegetação marginal. Nesse contexto, também são comuns as mortes e os prejuízos em áreas urbanas de todo o país pelo desmoronamento de barrancos desmatados e com construções irregulares por ação de chuvas previsíveis. É esperado, portanto, que com o esculhambamento da figura das matas ciliares, tanto pela anistia aos desmatadores, passando pela redução da área a ser preservada – que será insignificante na maioria dos casos – e até pela permissão de replantio com espécies exóticas, o carreamento dos agrotóxicos amplamente utilizados (e subsidiados) e de inúmeros outros poluentes e sedimentos aumentará significativamente, piorando a já desgraçada situação das águas brasileiras. Reparem que não entrei no mérito da perda de biodiversidade, alterações microclimáticas, alterações no fluxo de vazões dos cursos d’água, destruição de corredores ecológicos e afins – apenas tratei superficialmente da qualidade de águas. Para informações complementares sobre matas ciliares você pode clicar aqui, aqui, aqui e aqui. Não é profecia, é ciência.

Mas todo mundo sabe que desgraça pouca é bobagem. Um último e menos propalado ataque que eu gostaria de lembrar aqui vem do legislativo, mais uma vez denunciando o abismo que separa a política da produção científica, por iniciativa dos ‘representantes do povo’. Não bastasse os projetos de transformação de rios espetacularmente lóticos e cheios de vida em lagoas podres e pobres em nome de um suposto desenvolvimento, o nobre deputado Nelson Meurer (PP-PR) - que ganhou fama por jogar paciência durante uma sessão do plenário, é alvo de investigações por tráfico de influência, corrupção e formação de quadrilha e outro dia soltou em uma entrevista que “se a Dilma não soltar a grana, a gente não vai colocar em votação os projetos que o governo quer aprovar” – apresentou na Câmara o Projeto de Lei (PL) 5989/09. Sua proposta, após sofrer alterações no curso de sua tramitação na casa, é de incentivar a criação de espécies de peixes não-nativos em tanques–rede, equiparando-os às espécies nativas do curso d’água. Cabe ao Ministério da Pesca e Aquicultura determinar que espécies exóticas se enquadram  na deliberação, não sendo necessário verificar se a espécie já é previamente estabelecida na bacia. O PL ainda retira do aquicultor a responsabilidade de contenção dos espécimes e a prevenção de que escapem dos tanques e invadam a bacia.

Quem conhece um pouco de conservação sabe o tamanho do problema que o PL constitui. Invasões de espécies exóticas são atualmente a terceira maior causa de extinções no mundo, atrás de perdas de hábitat e caça/coleta predatórios e, no caso específico de peixes de água doce, a aquicultura é responsável principal por invasões biológicas, com bacias inteiramente infestadas em longo prazo. É teoricamente possível mas praticamente impossível evitar escapes de espécimes criados nesse modelo, assim como é impossível na prática eliminar espécies exóticas invasoras após seu estabelecimento. No reservatório de Barra Bonita, no rio Tietê, monitoramentos da pesca profissional entre 1991 e 2006, mostram que o incremento, nos desembarques, da tilápia - uma das grandes invasoras das bacias brasileiras - se deu em detrimento das espécies nativas (AES Tietê, 2007 apud LIMA JÚNIOR et al., 2012 - mando o pdf pra quem quiser). Em curto e médio prazo, o escape de animais com alto potencial reprodutivo e dispersor, favorecidos pela presença de grandes reservatórios onde não deveria haver, tendem a suprimir a fauna local, alterar a qualidade da água, introduzir parasitas e extinguir espécies que muitas vezes apresentam grande potencial comercial, mas baixo desenvolvimento tecnológico para produção em cativeiro. Nesse sentido, é paradoxal imaginar um país com uma extraordinária variedade de peixes incentivar a introdução de espécies notadamente causadoras de desastres ambientais e de qualidade comercial inferior.

A importação de pacotes tecnológicos e espécies mostra – tanto nesse caso como na agricultura, na silvicultura, na geração energética e em tantos outros exemplos – o profundo desprezo das políticas públicas brasileiras pelo incentivo à pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias nacionais que valorizem os produtos do Brasil e respeitem os aspectos socioambientais. Programas de manejo de espécies nativas na tentativa infrutífera de salvá-las da extinção por conta da voracidade incontrolada do setor hidrelétrico mostram que não é impossível a criação das espécies brasileiras em tanques, apesar dos pesares: falta um pouquinho de vontade política em experimentar e ampliar essas iniciativas. Mas a herança maldita do governo militar em crescer, crescer e crescer a qualquer custo impossibilita a boa vontade política, que, na teoria, traz menos votos. A premissa de que crescimento é igual a desenvolvimento continua em alta no ‘país de todos’, ao mesmo tempo em que o modelo utilizado como referência entra em colapso no hemisfério norte e os indicadores de desenvolvimento humano brasileiros continuam nos patamares de sempre. Passou da hora de a sociedade brasileira entender e cobrar um modelo de desenvolvimento verdadeiramente pautado nas demandas da população brasileira: promover igualdade social não passa por distribuição de esmola e bolsas em universidades de nível duvidoso. Desenvolvimento social, no Brasil, passa pela exploração equilibrada e ambientalmente correta da abundância de recursos naturais, educação de qualidade e uma reforma agrária profunda.