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quarta-feira, 21 de junho de 2017

Animação mostra os impactos ambientais de estradas na Amazônia

Veja como a degradação florestal, a extração de madeira e os focos de incêndio na Amazônia estão intimamente relacionados à presença de estradas, que permitem o acesso a locais anteriormente remotos da floresta.

Veja a relação entre degradação ambiental, retirada de madeira e focos de incêndio na Amazônia com a presença de estradas.
Fonte dos mapas: http://florestasilenciosa.ambiental.media/

Se você pausar o GIF nos focos de incêndio florestal, por exemplo, consegue ver claramente o traçado da rodovia transamazônica. Esta corta o coração da Amazônia brasileira de nordeste a sudoeste e se encontra com a BR 163, vinda do Mato Grosso, bem no centro do mapa. Um pouco abaixo dessa confluência, às margens da estrada, estão unidades de conservação como a Floresta Nacional do Jamanxim que estão sendo tomadas por grileiros e que deverão ser destruídas por Temer e a bancada ruralista. A ocupação é obviamente induzida pela rodovia. Também podem ser vistos vários pequenos focos de incêndio ao longo do rio Amazonas, outra via importante de transporte.

Outro ponto que chama a atenção é a BR 319, de Manaus a Porto Velho, no centro-oeste da Amazônia. Há muito pouca degradação ambiental no entorno da rodovia porque ela não é asfaltada e está em condições precárias. O projeto de asfaltamento sofre firme resistência do IBAMA e de especialistas e há uma clara tentativa de atropelar o licenciamento ambiental e apressar a obra, como é praxe do nosso governo, o que fatalmente abriria a última fronteira de desmatamento no intacto - pois isolado - bloco de florestas do oeste brasileiro.

Tirei os mapas do belo projeto do http://florestasilenciosa.ambiental.media/

Postado originalmente no Facebook.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

O tiozinho da Embrapa atacou de novo

Tô aqui embasbacado com o "artigo" do intrépido tiozinho da Embrapa, Evaristo de Miranda, publicado no Estadão (http://bit.ly/2tdcM1k). Ele assinou com caps lock no fim "CHEFE GERAL DA EMBRAPA MONITORAMENTO POR SATÉLITE". Não lia nada tão ruim desde o prefácio do PL que alterava o Código Florestal, de autoria do Aldo Rebelo. É sem dúvida um grande feito (que achei pelo ótimo ClimaInfo).

Não me refiro aos incontáveis erros de concordância ou à, digamos, ousada aplicação de pontos de exclamação, parênteses e reticências ao longo do artigo. O que escandaliza é a desonestidade com os dados, a absoluta ausência de rigor científico e a deliberada distorção de números, fatos e estatísticas pra ludibriar leitores leigos.

O título já é audacioso: "Agricultura lidera preservação no Brasil". Qualquer pessoa mais ou menos bem informada já sabe que vem por aí uma cruzada anti-ambiental pautada no falso antagonismo entre produção e preservação; e que o texto invariavelmente vai falhar na sustentação de tão audaciosa sentença.

É o que acontece: primeiro Evaristo cita que o Brasil tem 13% do território em APs (áreas protegidas, ou seja, unidades de conservação + terras indígenas, segundo a definição que ele parece ter usado aqui), quando tem pelo menos o dobro (http://bit.ly/2td7MJV). Depois ele afirma que a área de reserva legal protegida nas propriedades rurais (20,5% segundo ele) é maior que a área das APs (13%) porque é 20 é maior que 13, sem citar que 20 se refere apenas a área somada das propriedades rurais (ou seja, 410 milhões de ha) e que 13%, que na verdade são 27%, se aplicam sobre toda a área do país (851 milhões ha); matemática básica, as áreas protegidas não são pouco mais da metade, mas o dobro do percentual (não 13, mas 27%) de uma área duas vezes maior (851 x 410), ou seja, 4 vezes mais terras do que as reservas legais, quase 8x o que ele sustenta. Pra quem é CHEFE GERAL DA EMBRAPA MONITORAMENTO POR SATÉLITE é um "erro" com algum peso...

Detalhe: sei que não deveria, mas tô dando um voto de confiança nos 20% dele sobre preservação em propriedades rurais, com base no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Desconfio que tem mutreta estatística aí também, como contabilizar áreas de preservação que deveriam ser preservadas, mas que não estão de fato, seja pela anistia de Dilma  Temer e sua base aliada, seja pela ineficiência da aplicação da lei. Além disso, o CAR é feito com base apenas na declaração dos proprietários e não tem georreferenciamento obrigatório, portanto ainda carece de validação por parte do poder público, por via remota ou por vistorias. Evaristo deu sua opinião sobre esta necessária validação de dados pra que o código florestal seja de fato cumprido: "pasmem! – algumas instituições ainda pretendem organizar uma verdadeira 'inquisição informatizada' para analisar a situação ambiental de cada um".

Miranda is on fire: diz que reserva legal, aquele percentual da sua propriedade que você não pode mexer pra fins de preservação, é tipo você comprar um ap e não poder usar 80% da área dele ¯\_(ツ)_/¯. Esse insight maravilhoso sequer é original, dado que todos os outros lobistas do agronegócio, como por exemplo a feminista-neocomunista Kátia Abreu, costumam passar vergonha com ele. Completa dizendo que o proprietário "cuida de tudo e paga impostos, mesmo sobre o que lhe é vedado usar", o que é uma mentira deslavada, dado que o ITR (o IPTU da roça) é calculado com base apenas na área "produtiva" (e também tem alto índice de sonegação porque carece de validação dos dados, Evaristo, não vamos esquecer).

O fim do artigo é dedicado a desafiar a própria lógica em uma longa explanação com números nebulosos mostrando o tanto que a agricultura preserva mais que as terras indígenas e as unidades de conservação. Ora, se isso é verdade, apenas reforça a tese de que temos um grande déficit de áreas protegidas no Brasil. De fato o único bioma bem protegido é a Amazônia, com grandes UCs e TIs; no sudeste e no sul os indígenas foram dizimados nos primeiros séculos e as paisagens rapidamente convertidas, e o que se discute hoje é como salvar o que sobrou e como evitar que o Cerrado, a Caatinga e a Amazônia tenham o mesmo destino dos Pampas e da Mata Atlântica, onde praticamente não há pra onde expandir APs. O fato de propriedades rurais abrigarem boa parte dos remanescentes só reforçam que a exigência de reservas legais e APPs em propriedades rurais é uma política acertada.

Pra terminar, Evaristo argumenta que "a responsabilidade e os custos decorrentes da imobilização e da manutenção dessas áreas recaem inteiramente sobre os produtores, sem contrapartida da sociedade, principalmente dos consumidores urbanos", o que ignora que as áreas preservadas (dentro e fora das propriedades) são o que garantem a água, os polinizadores, a ciclagem de nutrientes, a estabilidade climática e muitos outros insumos da agricultura; ignora os 200 bilhões anuais de crédito altamente subsidiado que a sociedade brasileira dá pra viabilizar o setor; e ignora a poluição do ar e da água, a concentração de renda, o trabalho escravo, o êxodo rural e todos as outras imensas externalidades que a sociedade recebe de volta, de forma difusa, sem contrapartida dos 'grandes produtores'.

E a parte mais triste é a ameaça final: "a Embrapa calculará o valor e o custo de toda essa área imobilizada". O papelão da Embrapa em 2010 se omitindo quando se discutia o novo código florestal, sua atuação orientada pro desenvolvimento de tecnologias em transgênicos com dinheiro público e o abrigo que dá a pessoas dedicadas a fazer lobby do agronegócio - essa seita parasitária que busca crescer a qualquer custo avançando sobre a destruição de direitos alheios e bens comuns - é a parte mais triste da história.

Postado originalmente no Facebook.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Leptophis ahaetulla

Agosto/16, amarrei o barco no primeiro arbusto acessível do lago Mamirauá e um dos guias locais começou a palestra. Eu geralmente só interrompia se passasse um bando de araras ou pra traduzir aquelas gírias maravilhosas do amazonês-de-beira-de-rio pro 'português', e daí pro inglês, que afinal é língua de 70% dos turistas que vão à Pousada Uacari. O papo ia longe quando fui despertado de uma longa explanação, totalmente concentrado que estava em traduzir coisas como "boiou o macaco" ou "olho da samaúma": lá da popa, do outro lado do canoão, a resenha comia solta, os guias se matavam de rir e já tavam pra cair no lago.

Parêntese: os guias locais são ribeirinhos, em sua maioria moleques com menos de 25 anos, cuja rotina de trabalho se alterna entre achar animais invisíveis ao olho humano literalmente através de um emaranhado de folhas e galhos, como se fossem meros elefantes em uma savana, com a arte de zoar os gringos - pela cor, pelo cabelo, pelo sotaque, pelo medo de absolutamente tudo que se move ou simplesmente pela cara de gringo que os gringos têm.

Naturalmente supus do que se tratava e até já guardava umas três histórias daquele passeio pra resenha da noite, quando os turistas dormem e todo mundo se amontoa em redes nos fundos da pousada. Mandei calarem a boca e tentei continuar, uma, duas, três vezes, sem sucesso. Ajoelhado na extremidade da proa e virado pra trás eu via todos os 20 turistas e guias distribuídos nas duas canoas emparelhadas e a essa altura a risada já tinha contagiado metade do grupo. Uns comentários em línguas que eu não faço a menor ideia e dedos apontando pro meu ombro direito denunciaram que eles riam em minha direção. Congelei por um instante e me virei, lentamente.

Depois daqueles 2 segundos intermináveis que você leva pra ver um animal amazônico e sua inacreditável camuflagem de folha, ou de galho, ou de ambos, focalizei essa criatura magnífica me encarando, assim, de soslaio, a menos de três palmos de distância. Me esforçando pra manter a postura de biólogo-indiana-jones que a gente espera do nosso guia naturalista amazônico e tentando não recuar mais que os mínimos 10 cm esperados de um ser humano nessa situação, soltei algum palavrão em português que fez a gringaiada desabar a rir. Os moleques já se contorciam, olhavam pros gringos e confirmavam "isneik, isneik" antes de voltar a gargalhar. Uma terceira parte do trabalho deles era rir da minha cara - pra eles, tão gringa quanto qualquer outra - além de xingar o Lucas Pratto e o Robinho só pra me ver chamar pra briga.

Leptophis ahaetulla, cobra-cipó ou cobra-papagaio, no Lago Mamirauá, Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá/AM
Paramos pra sessão de fotos da cobra-papagaio e seguimos a palestra, que se emendou a uma revoada de garças, a uma perseguição de botos cor de rosa e à fuga dos macacos brancos de cara vermelha. Foi a quinta ou sexta semana seguida que o sol se pôs e o excesso de vida amazônica não deixou a gente cobrir nem metade do trajeto planejado...

Postado originalmente no Facebook

quarta-feira, 23 de março de 2016

Silvinha, o açaí e a educação das crianças

Em algum livro sobre o Instituto Mamirauá (IDSM), conta-se a história maravilhosa de um técnico em educação enviado às comunidades ribeirinhas que estava tendo muitas dificuldades em convencer os profissionais de educação locais que não deveriam ser utilizadas referências do Sul e Sudeste do Brasil em sala de aula. A nova proposta era substituí-los por elementos da cultura local, presentes no dia-a-dia das crianças.

Sozinho e pensativo em uma sala de aula, o técnico foi interrompido por uma criança que estava aprendendo a ler. O pequeno tinha uma dúvida. No quadro onde se colocavam imagens e seus respectivos nomes, o garoto apontou uma fruta redonda e roxa, ao lado da qual estava escrito 'uva', e disse:

- Professor, está errado, açaí não se escreve com u.

Na foto abaixo, o caso de amor de Silvinha e o açaí.

Silvinha e o açaí, na comunidade Sítio de São José
Foto: André Aroeira Pacheco