Depois de uma
semana de um luto bem curtido (talvez seja assunto por aqui em breve, talvez
não), algumas leituras oportunas voltaram a despertar certos pressentimentos
catastróficos que povoam a mente de qualquer biólogo bem informado nos tempos
modernos. Não pretendo dar ao blog um ar de Jornal da Alterosa e nem pretendo
dar voz ao radicalismo verde que enfraquece a argumentação em defesa das causas
ambientais - mais por ingenuidade do que por falta de boas intenções - mas não
dá pra debater o futuro dos rios brasileiros sem ser pessimista. Se a situação atual
já é catastrófica, a situação projetada para médio prazo, com todas as iniciativas
do executivo e os ataques à regulamentação, que já anda meio mal das pernas, promovidos
pelo legislativo, a tendência é que haja piora significativa (eufemismo). Antes
de começar a projetar o futuro, devemos ter em mente algumas considerações
acerta do status atual das bacias hidrográficas brasileiras.
Em primeiro
lugar, o que você encontra em qualquer portalzinho
meia boca, ouvia da sua professora desde os 5 anos e provavelmente ficou
fascinado em saber: o Brasil tem 12% da água doce do planeta e dois dos maiores aqüíferos do mundo. Talvez tenha
lido um pouco mais sobre o assunto e sabe que o Brasil tem a maior diversidade de peixes do mundo, e se for um
cara muito bom como o Manconi ou o Pronzato vai saber que até em espécies de esponjas dulcícolas o Brasil é fodão, com pelo
menos 25% das espécies da Terra, 94% delas endêmicas, segundo dados de 2007: pra não complicar a cabeça e não perder o foco, não
vamos discutir o quanto um país subdesenvolvido de dimensões continentais e
desprezo à pesquisa conhece da totalidade de suas espécies de esponjas de água
doce num dos cantos mais aguados do planeta. O fato indiscutível é que temos o
potencial pra sermos os maiores do mundo em tudo que se refere à água, segundo os
conhecimentos científicos produzidos até o século XXI.
Na prática é diferente. A relação do povo brasileiro e principalmente do
governo brasileiro com as bacias do país - e a Mata Atlântica, e os animais, o
mar, os solos (...) - é mais ou menos a relação de um cafetão com a sua(s)
puta(s) – é sério, um amigo meu tem um amigo que conhece muito bem o submundo
do amor e me contou. O governo nas três esferas de poder é o culpado óbvio, por
ser ele o implementador (e fiscalizador) de medidas de comando e controle e pelo estabelecimento
(e fiscalização) dos instrumentos econômicos que vão gerir a relação da
sociedade com o ambiente, de forma geral. Na maioria dos casos, portanto, é
culpa direta do governo, por ação ou inação, que o agricultor destrua os rios
de sua propriedade (e da propriedade alheia) com agrotóxicos; que as cidades
despejem dejetos com variados níveis de contaminação em suas águas (e na dos
próximo), não necessariamente de forma clandestina; que milhares percam tudo
pras previsibilíssimas enchentes e desmoronamentos que assolam todo o país, todos
os anos. Todas essas correlações não são tão óbvias assim, e serão matéria de
discussão por aqui nos próximos meses. Mais uma vez, a moral da história é que
a posição negligente (dolosa?) do governo com os recursos naturais do País leva
a catástrofes ambientais – e sociais – no país mais abençoado do mundo, ou pelo
menos o foi, entre os anos 6.000.000.000 a.C. e 1.499 d.C..
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Mapa de 2002 com os empreendimentos hidrelétricos alterando
profundamente os cursos d'água do sudeste brasileiro: naquela
época, já era difícil ver São Paulo. Fonte: Aneel
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Animais como o bagre e como a perereca de Lula são símbolo do desprezo
ambiental que é empurrado guela abaixo de uma pequena parcela de pessoas bem
esclarecidas – incluindo os técnicos do IBAMA, cuja opinião não
interessa – em discursos pautados pela desinformação, pela dissimulação e pela mentira.
O analfabetismo funcional e a ignorância ecológica do ex-presidente parece
ter se disseminado por transmissão vertical quando resolveu parir outra
aberração ecológica: Dilma conseguiu completar 18 meses sem criar uma Unidade
de Conservação sequer enquanto era conivente com a retalhação do Código Florestal. Simultaneamente,
promulgou a MP 558 que retira 86 mil
hectares de UCs para dar lugar a 4 megausinas hidrelétricas, em sintonia com os
anseios dos grandes financiadores de sua campanha, que terão bilhões pra torrar
(na verdade, fazer o que quiser) em suas empreitadas.
Exatamente no novo CF se espera a destruição mais profunda da qualidade
das águas brasileiras. A figura da mata ciliar como Área de Proteção Permanente
foi severamente comprometida, o que na prática limita muito a proteção que estas
exerciam na contenção de encostas e poluentes. É um consenso antigo na
comunidade científica que o lixiviamento de agrotóxicos, metais, lixo e
diversas outras formas de contaminantes é grande em épocas chuvosas e
especialmente preocupante em rios onde não existe vegetação marginal. Nesse
contexto, também são comuns as mortes e os prejuízos em áreas urbanas de todo o
país pelo desmoronamento de barrancos desmatados e com construções irregulares
por ação de chuvas previsíveis. É esperado, portanto, que com o esculhambamento
da figura das matas ciliares, tanto pela anistia aos desmatadores, passando
pela redução da área a ser preservada – que será insignificante na maioria dos
casos – e até pela permissão de replantio com espécies exóticas, o carreamento
dos agrotóxicos amplamente utilizados (e subsidiados) e de inúmeros outros
poluentes e sedimentos aumentará significativamente, piorando a já desgraçada
situação das águas brasileiras. Reparem que não entrei no mérito da perda de
biodiversidade, alterações microclimáticas, alterações no fluxo de vazões dos
cursos d’água, destruição de corredores ecológicos e afins – apenas tratei
superficialmente da qualidade de águas. Para informações complementares sobre
matas ciliares você pode clicar aqui, aqui, aqui e aqui. Não é profecia, é
ciência.
Mas todo mundo sabe que desgraça pouca é bobagem. Um último e menos
propalado ataque que eu gostaria de lembrar aqui vem do legislativo, mais uma
vez denunciando o abismo que separa a política da produção científica, por iniciativa
dos ‘representantes do povo’. Não bastasse os projetos de transformação de rios
espetacularmente lóticos e cheios de vida em lagoas podres e pobres em nome de
um suposto desenvolvimento, o nobre deputado Nelson Meurer (PP-PR) - que ganhou
fama por jogar
paciência durante uma sessão do
plenário, é alvo de
investigações por tráfico de influência, corrupção e formação de quadrilha e outro dia soltou em
uma entrevista que “se a Dilma não soltar a grana, a gente não vai colocar em
votação os projetos que o governo quer aprovar” – apresentou na Câmara o
Projeto de Lei (PL) 5989/09. Sua proposta, após
sofrer alterações no curso de sua tramitação na casa, é de incentivar a criação
de espécies de peixes não-nativos em tanques–rede, equiparando-os às espécies
nativas do curso d’água. Cabe ao Ministério da Pesca e Aquicultura determinar
que espécies exóticas se enquadram na
deliberação, não sendo necessário verificar se a espécie já é previamente
estabelecida na bacia. O PL ainda retira do aquicultor a responsabilidade de
contenção dos espécimes e a prevenção de que escapem dos tanques e invadam a
bacia.
Quem conhece um pouco de conservação sabe o tamanho do problema que o PL constitui. Invasões de espécies exóticas são atualmente a terceira maior causa
de extinções no mundo, atrás de perdas de hábitat e caça/coleta predatórios e,
no caso específico de peixes de água doce, a aquicultura é responsável principal por invasões biológicas,
com bacias inteiramente infestadas em longo prazo. É teoricamente possível mas
praticamente impossível evitar escapes de espécimes criados nesse modelo, assim
como é impossível na prática eliminar espécies exóticas invasoras após seu
estabelecimento. No reservatório de Barra Bonita, no rio Tietê, monitoramentos da
pesca profissional entre 1991 e 2006, mostram que o incremento, nos
desembarques, da tilápia - uma das grandes invasoras das bacias brasileiras - se
deu em detrimento das espécies nativas (AES Tietê, 2007 apud LIMA JÚNIOR et al., 2012 - mando o pdf pra quem quiser). Em curto e médio prazo, o escape de
animais com alto potencial reprodutivo e dispersor, favorecidos pela presença
de grandes reservatórios onde não deveria haver, tendem a suprimir a fauna local,
alterar a qualidade da água, introduzir parasitas e extinguir
espécies que muitas vezes apresentam grande potencial comercial, mas baixo
desenvolvimento tecnológico para produção em cativeiro. Nesse sentido, é paradoxal
imaginar um país com uma extraordinária variedade de peixes incentivar a
introdução de espécies notadamente causadoras de desastres ambientais e de
qualidade comercial inferior.
A importação de pacotes tecnológicos e espécies mostra – tanto nesse caso
como na agricultura, na silvicultura, na geração energética e em tantos outros
exemplos – o profundo desprezo das políticas públicas brasileiras pelo
incentivo à pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias nacionais que valorizem
os produtos do Brasil e respeitem os aspectos socioambientais. Programas de
manejo de espécies nativas na tentativa infrutífera de salvá-las da extinção
por conta da voracidade incontrolada do setor hidrelétrico mostram que não é
impossível a criação das espécies brasileiras em tanques, apesar dos pesares:
falta um pouquinho de vontade política em experimentar e ampliar essas
iniciativas. Mas a herança maldita do governo militar em crescer, crescer e
crescer a qualquer custo impossibilita a boa vontade política, que, na teoria,
traz menos votos. A premissa de que crescimento é igual a desenvolvimento
continua em alta no ‘país de todos’, ao mesmo tempo em que o modelo utilizado como
referência entra em colapso no hemisfério norte e os indicadores de
desenvolvimento humano brasileiros continuam nos patamares de sempre. Passou da
hora de a sociedade brasileira entender e cobrar um modelo de desenvolvimento
verdadeiramente pautado nas demandas da população brasileira: promover
igualdade social não passa por distribuição de esmola e bolsas em universidades
de nível duvidoso. Desenvolvimento social, no Brasil, passa pela exploração equilibrada e ambientalmente correta da abundância de recursos naturais, educação de qualidade e uma reforma agrária
profunda.